Quatro formas de Crazy Quilt

Volto a falar de técnicas: Crazy Quilt.

Crazy QuiltEmbora eu deva confessar que não sou uma de suas maiores fãs, há várias curiosidades em torno da história desta técnica, e sua importância para o patchwork moderno. Além disso, crazy quilt é uma expressão que também aparece de formas inusitadas, as quais nos fazem pensar, inclusive, o que realmente significa quilt. Vou explorar essas formas em quatro posts, destacando suas histórias e curiosidades.

Este é o primeiro.

O Crazy Quilt não é propriamente um quilt, visto que na grande maioria das vezes não era utilizada a manta, portanto, não havia o sanduíche (tecido, manta, tecido) ou acolchoado que é o que designa o quilt em si. Assim ele é encarado como um pseudo-quilt, pois embora seja um tipo de patchwork, não é um tipo de quilt.

Crazy Quilt - detalheOs retalhos eram unidos aleatoriamente, orientados pela criatividade pessoal e a interação dos materiais, utilizando uma grande variedade de bordados entre as costuras como ornamentação. O valor do quilt estava relacionado diretamente à quantidade e à complexidade dos bordados: quanto mais melhor. Isso produzia peças rebuscadas com muitos detalhes singulares. Esses bordados possuíam intenso simbolismo que expressavam as emoções e desejos de quem os realizavam. Hoje em dia, são feitos workshops nos EUA que ensinam essa linguagem (Crazy Talk), possibilitando a leitura do que está “escrito” em um trabalho antigo de crazy quilt. Um cravo vermelho, por exemplo, significa “pesar em meu pobre coração”, enquanto um alecrim simboliza recordação.

Logo após a Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra da Secessão (1861 a 1865), o patchwork passou por um período de grande expansão nos Estados Unidos, pois o algodão era cultivado por mão-de-obra barata de ex-escravos no Sul, fazendo com que os tecidos tivessem preços muito baixos. Além disso, esta é a época do surgimento das revistas femininas, como a Ladies’ Home Journal, que passaram a distribuir projetos de Patchwork nacionalmente.

Neste cenário é que o crazy quilt surge e rapidamente encontra grande aceitação entre as quilteiras. Sua assimetria é encarada então como uma grande liberdade da ordem e regularidade estabelecida pelos blocos geométricos tradicionais, pois oferecia infindáveis possibilidades de criação.

Goldwork detail

Detalhe de um bordado em crazy quilt moderno

O surgimento de tal técnica advém, principalmente, da influência japonesa e britânica. Durante a Centennial Exposition, realizada em 1876, na Filadélfia, as louças craqueladas japonesas (“crazed china”) fizeram grande sucesso. Dessa assimetria dos craquelados surge a primeira inspiração para o crazy quilt.

Já a influência britânica se deve ao Victorian Aesthetic Movement, que pregava a arte pela arte, ou seja, a arte não precisa ser utilitária, mas apenas bela, sendo encarada como uma completa amostra da autonomia e criatividade do ser humano.

Em meio a isso, os chamados novos ricos americanos passaram a ter bastante tempo livre que podia ser gasto com a arte. Assim, o trabalho manual com agulha parecia bastante apropriado para as mulheres dessas famílias, que podiam se utilizar de tecidos finos, como a seda, e tecer intrincados bordados, os quais tinham a finalidade apenas de serem bonitos. É também por isso que ele não precisava de manta, porque não era suposto que ele esquentasse, mas apenas enfeitaria as casas das senhoras.

No início do século XX, o Crazy Quilt entra em declínio, quando passa a ser ridicularizado como algo brega, feio e “poluído” demais. As críticas eram ferrenhas: “terrível monstruosidade, para dizer o mínino” (Dr. Dunton); “o tempo, paciência, pontos, erros que o crazy quilt representa… são demais para se por em palavras” (Godey’s Lady’s Book); “ociosidade ocupada de maneira a parecer produtiva [...] aqueles que fazem ‘crazy patchwork’ parecem ter se alimentado de uma raiz insana que aprisiona sua razão.” (Harper’s Bazzar)

Crazy quilt moderno

Crazy quilt moderno

Entram então em cena, os românticos apliques florais de Marie Webster, quando as quilteiras passam a preferir formas mais simples e visuais mais limpos.

O crazy quilt será redescoberto nos anos de 1980 e 1990, de maneira renovada e com uma infinidade de possibilidades propiciadas pelos tecidos e aviamentos sintéticos. Hoje existem livros, projetos e a combinação de outras técnicas, como o foundation, que ampliaram muito os horizontes para se trabalhar com o crazy quilt.

Embora não seja uma unanimidade, tendo quem o ame e quem o odeie, o crazy quilt desperta bastante interesse entre as quilteiras do século XXI. Ele seduz pela possibilidade de criar peças únicas utilizando apenas sua própria imaginação.

Fontes:

http://www.caron-net.com/featurefiles/featmay.html

http://www.caron-net.com/featurefiles/featmay2.html

http://www.quiltersmuse.com/crazy_quilts_in_America.htm

http://www.texasquiltappraiser.com/lectures.htm

http://cqmagonline.com/vol08iss01/articles/899/index.shtml

http://www.buffaloah.com/f/fstyles/aes/aes.html

http://www.talktalk.co.uk/reference/encyclopaedia/hutchinson/m0002788.html

http://www.expomuseum.com/1876/

Este é o primeiro de quatro posts sobre Crazy Quilt. Clique para ler os demais.

1. Quatro formas de Crazy Quilt
2. Jogando Crazy Quilt
3. Crazy Quilt para crianças
4. Crazy Quilt fora da lei!!

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16 Respostas

  1. Fantastico!Sempre gostei do Crazy, e nao sabia desta sua rica historia. Continuo afirmando, este teu blog eh maravilhoso!Bjs.

    • Olá Solange

      Realmente, a história do Crazy é muito rico. E é por isso que, ao pesquisar, apareceram outras tantas coisas relacionadas a ele, o que me fez publicar esta pequena série de posts.

      Beijo
      Janaina

  2. Querida Janaina, obrigada mais uma vez, voce aumenta o nosso conhecimento sobre a arte do patchwork através do OMELETE DE AMORAS, beijos

    • Obrigado Themis

      Algo que estou achando muito legal no blog é que através dele estou conhecendo muitas outras pessoas interessadas e preocupadas com isso também! Acho que tem muita gente que pode contribuir!

      Beijo
      Jana

  3. Que ótimo, este blog! É uma verdadeira fonte para quem como eu adora saber as histórias das coisas!
    Parabéns pelo trabalho e obrigada pela paciência e generosidade em dividir com todos os conhecimentos adquiridos! Não perco um post! Estou adorando!

  4. Jana, me admira sua dedicação ao seu projeto.
    Fazer o que se gosta é outra coisa!
    Me entende agora porque gosto tanto de trabalhar?
    Beijo!

  5. Puxa, gostei demais do artigo sobre “Crazy”, aliás, sou apaixonada pela técnica!
    Td de bom e parabéns pelo NIVER!!!!!

  6. Muito interessante a tua pesquisa…Ampliando os meus horizontes do Patchwork .To cada dia mais interesada no teu blog. Bjs.

  7. Olá!! Parabéns pela pesquisa!! Sou dona de uma comunidade de patchwork e lancei um desafio, que lá chamamos de charada…e as gurias da comunidade tinham que pesquisar sobre o Crazy . Várias colocaram muitos artigos, mas o mais completo e que diz a mesma coisa do que um livro de crazy que tenho, foi esse aqui e por isso uma das gurias, a que respondeu mais completamente foi a vencedora do desafio!! Amo muito patchwork e admiro demais o crazy!! Beijokas

    • Obrigada Sonia!
      Quero visitar sua comunidade. Qual é o endereço?
      E fico feliz de saber que o site está servindo como fonte de pesquisa.
      Acho mesmo que precisamos saber mais da história dessa arte que tanto amamos.
      Você está de parabéns pela iniciativa.
      Beijo
      Janaina

  8. Já fiz almofadinhas de retalhos, essa informação te ajuda?Tudo bem que não sou antiga…
    Brincadeirinha. Continue pesquisando.
    O que se faz com paixão tem outro gosto.
    Um beijo
    Aurea

    • Oi Sogra! Tanto você é antiga que escreveu o comentário no post errado! hahahahaha
      Acho que você queria ter comentado o post “Do porquê pesquisar o patchwork americano”
      Brincadeirinha.
      Beijo sogra

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