O baixo custo do quilt

O cônjuge de uma nova quilteira vê, em primeira mão, como o amor – ou obsessão – pelo patchwork pode florescer rapidamente.

A. B. Silver começou escrevendo sobre as peripécias de sua esposa, Joan, quando ela se aposentou e descobriu a arte do quilt. Como seu estoque de tecidos começou a aumentar, A. B. passou a colecionar histórias. Ele começou postando pedaços engraçados de suas conversas na internet, usando o apelido de “Popser”, e recebeu respostas entusiásticas de quilteiras e maridos de quilteiras como ele.

Atualmente, ele já publicou duas coletâneas de seus ensaios.

Essa é mais uma história que está publicada no livro Once Upon a Quilt, postada aqui com tradução livre feita por mim.

O baixo custo do quilt
por A. B. Silver

“Como você paga isso?” Nossos amigos sempre perguntam.

“Mas todos esses tecidos não custam uma fortuna?

“Mas todos esses apetrechos para patchwork não causam uma bancarrota?”

Eu sempre respondo que nós não podemos pagar por isso, que os tecidos custam uma fortuna e que comprar esse suprimentos para patchwork podem causar uma bancarrota. A Querida Esposa (QE), a quilteira, no entanto, tem uma resposta diferente para cada questão. Tudo tem a ver com o fato de que ela desenvolveu um cérebro quilteiro, o qual provavelmente é angular ou pontudo ou quadrado ou em tira. Sem dúvida, as células de seu cérebro formam um caleidoscópio ou então estão unidas formando algum bloco de algum manual de patchwork para iniciantes.

“Quanto custou esse tecido?” Eu perguntei a ela no seu segundo mês de patchwork. Ela havia acabado de chegar de uma ida a alguma loja de patchwork onde as quilteiras conversam entre si em código secretos e encorajando-se mutuamente como se elas todas fossem membros de algum grupo de ajuda de 12 passos. Todos os 12 passos, sem dúvida, devem ser realizados gastando mais dinheiro do que no passo anterior.

“Não muito”, ela disse.

“Não muito quanto?” Eu perguntei. Antes dela pegar no quilt, ela iria me dizer quanto ela gastou. Agora, que sem dúvida ela fez algum voto de sigilo das quilteiras, ela pode evadir, despistar, disfarçar ou encobrir, mas ela nunca mentiria.

“Foi uma grande barganha”, ela disse, evadindo, despistando, disfarçando e encobrindo.

“E quanto essa barganha custou?” Eu perguntei. O truque é ser persistente. A nossa aposentadoria depende disso. Nós ainda não temos pensão de aposentadoria, e limpar pára-brisas no semáforo não é exatamente um trabalho que eu gostaria de ter que fazer no futuro.

“Menos do que eu pensava”, ela disse.

“Quanto menos?” Meu tom de voz já estava propositalmente demonstrando o quão impaciente eu estava pela resposta.

“Você quer saber exatamente?” Ela reconheceu o tom.

“Quanto esse tecido custou?” Eu perguntei.

“Doze casquinhas de sorvete”, ela disse.

Isso foi há onze meses atrás e o começo da sua versão de contar os custos do quilt. Contas de quilteiras, de acordo com a nova maneira de pensar da minha QE, servem para mostrar que através de um orçamento cuidadoso, o patchwork tem custo livre. Na verdade, ela vai tentar provar, na enchente de compras dos próximos meses que ela está é economizando.

“Casquinhas de sorvete?” Eu perguntei naquele dia. “Doze casquinhas de sorvete?”

“Eu não irei chupar doze casquinhas de sorvete”, ela disse.

“E?” Eu perguntei naquele dia.

“Substituição”, ela disse. “O dinheiro que eu economizei não chupando as doze casquinhas de sorvete vai pagar pelo tecido.” Ela estava deliciada com sua versão de uma nova matemática, a matemática da quilteira.

“Você não irá chupar doze casquinhas de sorvete?” Eu perguntei, mas eu já não esperava mais nenhuma explicação. Ela me passou para trás.

“Lembra quando você comprou o computador há quatro anos atrás?”

“Sim”, eu disse receando.

“E lembra o que você disse para todo mundo que perguntou como você podia comprar um computador tão top de linha?”

“Prossiga”, eu disse.

“Você disse para todo mundo que ao invés de comprar o carro mais caro que você queria, você escolheu um mais barato e usou a diferença para comprar o computador.”

“Eu disse isso?” Eu disse isso. Isso fez sentido para mim na época.

“Eu não irei chupar doze casquinhas de sorvete, então eu posso comprar o tecido com o dinheiro que eu não gastei.”

“Isso faz sentido”, eu disse.

“E eu tenho quatro dólares para gastar por dia, porque eu não irei fumar dois maços de cigarro.”

“Você já não fuma há quatro anos.”

“Pois então, eu comprei a máquina de costura com esse dinheiro.”

“Eu pensei que a gente tinha comprado a máquina de costura com o dinheiro da viagem que nós não fizemos a Fiji.”

“Nós usamos esse dinheiro na viagem que fizemos ao museu nacional do quilt em Paducah.”

“Eu pensei que nós tínhamos pagado essa viagem ao não comer caviar a cada café da manhã.”

“Você não gosta de caviar”, ela disse.

“Eu gosto de peru”, eu disse.

“Sim, e eu pude comprar toda aquela manta não comprando centenas de potes de geléia de frutas silvestres.”

“E nós não tivemos inhame esse ano”, eu disse.

“Você não comeu inhame. Eu comprei viés com esse dinheiro.”

“E o que mais que eu não comi que você não comprou?”

“Você é alérgico a camarão, então ele pagou pelos projetos.”

“E quanto camarão eu não comi?”

“Em torno de dez latas. Eu podia não ter comprado camarão fresco e portanto teria economizado mais ainda.”

“Eu não como lula. Eu suponho que você não tenha comprado nenhuma.”

“Eu não tinha pensado nisso. E eu realmente preciso de mais linha preta para o próximo projeto. Eu acho que não comprando lula, vai dar para comprá-la.”

“Parece-me que eu estou fazendo todos os sacrifícios.”

“Eu desisti de fazer as unhas.”

“Para quê? Você nunca na vida pagou para fazer as unhas.”

“E eu não pretendo fazer isso no futuro. Eu usei esse dinheiro para comprar três cutters e três placas de corte.”

E assim a gente vai e vem. Sempre que eu mostro para ela as evidências da nossa eminente falência, ela começa a sacrificar novas coisas. Essa manhã ela estava olhando um catálogo em busca de um tecido para forrar o quilt no qual ela está trabalhando. A meio caminho de pegar o segundo catálogo, ela me olhou enquanto eu cruzava a sala. “Que foi?” Eu perguntei.

“Vamos não escalar o monte Everest no Reveillon?” Ela disse.

“Eu não pretendo ir a lugar nenhum”, eu disse.

“Que bom, assim eu também posso comprar um livro novo.”

“Desde que isso não vá nos custar nada”, eu disse.

E com ela fazendo as contas, nós provavelmente iremos ganhar dinheiro nas compras.

Fonte:
SILVER, A. B. The low cost of quilting. In: ALDRICH, Margret (ed.). Once Upon a Quilt: a scrapbook of quilting past and present. Minneapolis: Voyageur Press. 2003. p. 97-98.

19 Respostas

  1. KKKKKkkkkkkkk !!! Rolei de rir… Nossa q texto interessante…acho q to no lucro, nao tenho marido!kkk/ Bjs,

  2. HAHAHAHA….Muito bom Janaina,dei muita risada, eu tb não vou escalar o Everest esse ano!!!! Imagine o que farei com esse dinheiro que ¨economizarei¨ hahahahahaha
    Obrigada por mais essa,bjs

  3. Muito gostoso começar o dia RINDO!!!
    Abraços

    Ana Maria

  4. Hpfum!!!”Num achei graça nenhuma”…..
    Sabe porque? EU VIVO fazendo essas contas!!!!!!!!!!!!!!!!
    Pior que elas sempre batem, hahahahaha
    Bjs,
    Monika

  5. Eu adoro ler Popser, só para ilustrar os textos on line para quem quiser ler também estão neste link: Popser playground http://popser.com/

  6. Mesmo não sendo quilteira, gostei desse modo de fazer as contas.
    Nada como um bom planejamento!
    Beijos

  7. kkkkk… amei esse texto.. e como é que pode ser tão real conosco, me identifiquei muito kkkkkk…. posso publica-lo em meu blog? claro que com os devidos créditos… bjs

  8. Adorei o texto!! morri de rir!! Alias adorei tudinho no teu blog!! Parabéns!!
    Beijocas
    Andreza

  9. Parabéns pelo blog, achei-o muito interessante, a história relatada é exatamente fiel ao comportamento da quiteira(quase arrependida), explico a cada compra temos que exercer um auto convencimento para não pirar.Quero saber se alguem tem o endereço de uma terapeuta de quiteiras…….porque todas nós padecemos de um mesmo mal…..
    Mas eu tenho um argumento que também é muito convincente……que bom so gastamos dinheiro com paninhos e nunca com terapia….rsrsrsrs
    Beijos e mais uma vez parabéns.

  10. Oi Janaina
    Visitei o seu blog hj pela primeira vez por indicação da Themis, adorei
    A historia acima então é bem inspiradora, coitados dos marido de agora em diante, pra todos os gastos teremos uma boa explicação, rsrrssrs
    bjs e voltarei a passar por aqui com certeza.
    Jainia

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