O encanto dos retalhos

Hoje posto outro texto do Eduardo, “O encanto dos retalhos”.

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O encanto dos retalhos

Não canso de me espantar. O Patchwork é algo realmente singular e sensacional. Mas não apenas ele. Tem algo relacionado às máquinas, aos tecidos e à capacidade de criação, sei lá. O fato é que fico me perguntando qual o mistério que faz tantas mulheres ficarem absolutamente loucas, alucinadas, diante de uma peça bem tecida.

E é algo que tem relação com tecidos, mas tem algo ligado a artesanatos de utilidades domésticas. Certo, toda mulher é louca por roupas. De todos os tipos, tamanhos e ocasiões. Mas não vejo a mesma loucura diante de roupas artesanais, ou roupas que elas mesmas tenham feito. Parece que as roupas, entre os artefatos de tecidos, atravessaram mesmo a barreira do artesanato para a manufatura.

At_the_sewing_machine705689-viMas tudo é diferente com o Patchwork.

Não consigo pensar em outro termo a não ser “alucinadas” para descrever a forma como estas mulheres ficam diante de caseados, colchas, bandôs, pesos de porta ou simplesmente um mosaico. Junte duas ou três e você terá uma conferência de suspiros, exclamações e uma vontade descontrolada de ter tudo, querer tudo, admirar tudo, fazer tudo. Mulheres num ateliê produzem uma cena absolutamente singular.

Mas por quê? Isso eu fico tentando entender. Por que o Patchwork é tão sedutor e provoca tanto envolvimento e tanta ansiedade? Minha esposa, quando fez sua primeira aula, ou quando comprou sua primeira máquina, ficou como criança, sem dormir, pensando em projetos e em coisas que queria fazer. Criança com seu brinquedo novo. Mas parece que os brinquedos não cessam, há sempre um brinquedo novo para encantá-la.

Tenho minhas teorias.

Uma é mais sociológica: diante da sociedade de consumo, da massificação e do esforço em homogeneizar as subjetividades e singularidades, o Patchwork seria uma forma de se diferenciar, de ter peças únicas, especiais, próprias.

Mas esta tese não resolve a diferença que existe entre o gosto pelo artesanato em geral e o Patchwork. Nunca vi o mesmo entusiasmo por uma aula de decoupagem, por exemplo.

Mulheres em suas máquinas de costura numa tecelagem americana nos anos 40

Mulheres em suas máquinas de costura numa tecelagem americana nos anos 40

Tendo a pensar que tudo tem relação com uma grande nostalgia. Máquinas antigas, costura à mão, o tecer junto (um ateliê é sempre uma balbúrdia animada), tomar café, fofocar e costurar são atividades muito ligadas a uma forma de ser mulher. Uma mulher que, hoje em dia, não tem mais espaço, já que ela tem que ser “profissional”, ter emprego, ter carreira, chefe, empregados, salário, 13º e todas estas coisas que todos queremos que termine para podermos fazer o que realmente queremos. A mulher de hoje é tão criticada por querer fazer “coisas de mulher”, como costurar, que o Patchwork talvez seja uma válvula de escape deste mundo do trabalho em que todos fomos enfiados à força, podendo fazer coisas mais tradicionalmente femininas, por assim dizer.

E definitivamente, o Patchwork é diferente da costura, que é mais precisa, mais trabalhosa e mais utilitária. Além disso, foi a própria costura, nas grandes tecelagens, que introduziram a mulher no mercado de trabalho, na Revolução Industrial. Pois não tenho dúvida: o encanto do Patchwork também está em sua não necessidade, na sua beleza gratuita: é simplesmente para ser mais bonito, para existir, para dar prazer, para gastar tempo fazendo, pensando, escolhendo cores e tecidos, para se exibir. Não é à toa que muitas não querem ganhar dinheiro com ele. Querem ter o direito de se encontrar, “tricotar”, criar e se agradar, nada relacionado ao mundo utilitário do trabalho.

Um círculo de mulheres costurando é uma forma comunitária única que envolve o artesanato, trabalho conjunto e o prazer de costurar

Acho que aí está parte do encanto dos retalhos, do reconstituir, do criar juntando peças aparentemente não juntáveis. Costurar é criar, é reunir, é dar vida e cores. Imaginando peças que se formam à medida que se costura.

Não é de hoje que mulheres se reúnem para esta fantástica criação e reconstrução que é o costurar. É uma atividade milenar que passou a ter um lugar mais fixo (o ateliê) com a popularização das máquinas de costura. Como ofício feminino ligado à casa, à vida doméstica, a costura sobreviveu à sua industrialização, que a levou para as fábricas e para o mundo do trabalho. Talvez, outra coisa que dê tanta força ao Patchwork seja o desejo de retorno das máquinas e da costura àquele círculo mais feminino, íntimo. Talvez o Patchwork moderno seja uma espécie de conexão com esta tradição (ou o desejo por ela), sendo a fonte de toda a animação e deleite que as mulheres manifestam ao envolver-se com esta arte em retalhos.

Talvez, talvez, talvez…

Por Eduardo Marandola Jr.

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